Presença e escuta: as pedagogias do Papa Francisco

Por Dom Leomar Brustolin (Publicação original 23/08/2018)


Ao assumir a sua missão de arcebispo de Buenos Aires, em 1998, o Cardeal Jorge Mário Bergoglio, envolveu-se diretamente com a catequese. Anualmente, redigia uma carta por ocasião da Festa de São Pio X (21 de agosto), patrono dos catequistas.

Desde então, Bergoglio propunha uma Igreja em saída, que não se acomodasse na manutenção de sua forma de agir. Queria que os catequistas saíssem ao encontro das pessoas nas cidades, onde elas se encontrassem para dizer-lhes que Jesus vive para elas, e insistia, também, que realizassem esse anúncio com alegria.

De certa forma, o futuro Papa delineava uma pedagogia da presença, caracterizada pela capacidade de acolhida, cuidado do outro e empenho para que ninguém fique à margem do caminho.


Sugeria que os catequistas colocassem toda sua criatividade em “saber estar” próximo de quem sofre, para que a escuta e a proximidade não fossem apenas um estilo, mas um conteúdo da catequese. Ele apresentava a presença e a proximidade como uma forma de educar na fé. Não seria esse um “fio de ouro” para toda a educação?

Outro aspecto relevante do Papa Francisco, enquanto Cardeal de Buenos Aires, é a sugestiva proposta do que ele denominou de “Pedagogia da Escuta”, conclamando os catequistas para que soubessem escutar e ensinar a escutar como fez Jesus. O Cardeal afirmou que a escuta primeireia o diálogo. O neologismo, que reaparecerá nos escritos do Papa Francisco, indicando que primeirear significa adiantar, tomar a iniciativa. Somente pela escuta se vencem as distâncias e se cria a empatia. Aqui também se denuncia o risco de uma educação que não esteja atenta à realidade da vida e das pessoas, e corre o risco de ser expressão de uma autorreferencialidade, que não é capaz de ousar para ir ao encontro dos desafios do tempo atual.

Para ele, escutar é mais que ouvir. Pois ouvir está na linha da informação. Escutar está na linha da comunicação, na capacidade do coração que possibilita a proximidade, sem a qual não é possível um verdadeiro encontro. "A escuta nos ajuda a encontrar o gesto e a palavra oportuna que nos desinstala da sempre mais tranquila condição de espectador”.

Certa feita, contemplando Buenos Aires ele declarou sua preocupação com “um povo e uma cidade ameaçados como nunca por uma cultura cada vez mais pagã, que se orgulha de sua amnésia e nos pretende impor um Deus destilado, transcendente, mas dentro dos limites da imanência, sempre à nossa mão para ser usado como um instrumento do consumismo que nos oprime”. Como são atuais essas palavras também para nós aqui!

A metodologia que se delineia em Francisco é a pedagogia da presença, da escuta e da proximidade. A atenção recai sobre as periferias, sobre os afastados e distanciados do caminho da fé. Ele não separa anúncio e cuidado misericordioso, fidelidade a Deus e fidelidade ao humano. Somente assim será possível enfrentar as transformações culturais que dificultam a transmissão da fé às novas gerações. Ir ao encontro do outro já é a urgência de toda ação educativa e catequética, segundo Francisco, afinal Deus sempre nos primeireia.