ARTIGOS

"Onde está Deus nessa pandemia?"

A presença do mal no mundo e nas decisões humanas é um mistério

 

Diante da pandemia da covid-19 alguém pode se questionar: "Onde está Deus?". Teólogos após a Segunda Guerra Mundial se perguntavam: "Como falar de Deus para quem contemplou Hiroshima, Nagasaki, Auschwitz e Birkenau?"

A complexa situação que a humanidade está vivendo implica na revisão das nossas relações econômicas, culturais, políticas e culturais. Também as religiões enfrentarão essa tarefa. Para a tradição judaico-cristã, trata-se de redescobrir o sentido do silêncio do Eterno diante do sofrimento, superando discursos que interpretam a pandemia como castigo. Isso não é bíblico, mas desejo humano projetado sobre o divino. Um Deus violento só pode ser pensado por quem não conhece o amor e a misericórdia. É necessário também rever a postura que insiste na "exigência" de curas milagres, quase tornando Deus um prestador de serviços à humanidade. Rezar para livrar a humanidade dos males e perigos é indispensável, mas pedir a proteção somente para determinados eleitos, é falta de sentimento de pertença à humanidade.

Deus criou este mundo e lhe concedeu total autonomia. A presença do mal no mundo e nas decisões humanas é um mistério. Isso exigiria aqui uma reflexão maior sobre a Teodiceia. Creio, porém, que a urgência deste flagelo precisa de uma palavra mais breve.

O silêncio de Deus não é apatia, pois o crente sente seu amor real que não o livra da cruz, como não poupou Jesus. Quem crê, sabe que a última palavra da história não será a doença e a morte. Não é o fim de tudo. Deus é empático com a humanidade, e por ser discreto, ele está agindo em cada médico, enfermeiro, colaborador de hospital, cientista e em todos que colaboram para superar esta crise. Está presente naqueles que arriscam a vida para salvar a vida dos outros. Ele está na solidariedade revigorada, naqueles que animam a esperança e rezam, porque são sabedores que ao final de toda essa provação, a humanidade vai precisar ver além do horizonte. A finitude e a impotência nos ensinam que ninguém nasceu para sofrer, mas a dor nos faz crescer. Deus está conosco, sempre!

Ascensão: esperar o céu servindo a humanidade

Passados quarenta dias da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor Jesus. Soleniza o que se reza no Símbolo Apostólico ao proclamar que Jesus subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso”. Pode-se dizer que não há como separar a ressurreição, da exaltação de Cristo. O Ressuscitado foi reconhecido como o Senhor.


Entretanto, dentre as Festas do Senhor, a Ascensão está distante da mentalidade de muitas pessoas em nosso tempo, marcado pelo imediatismo. Alguém poderia perguntar qual o sentido dessa celebração para o nosso cotidiano. Até mesmo sua compreensão pode ficar limitada se não for refletida a linguagem que se refere ao “subir aos céus”. Com a ciência que a humanidade adquiriu sobre o universo, ainda que não se explique tudo, torna-se difícil pensar que o céu esteja localizado acima de nossas cabeças e que o inferno se situe abaixo de nossos pés.

O sentido mais claro desta solenidade deve ser encontrado nos textos bíblicos previstos na liturgia deste dia. O início do livros dos Atos dos Apóstolos narra que ao concluir 40 dias de aparições, o Ressuscitado foi “elevado ao céu”(At 1,9). E enquanto os apóstolos olhavam para o céu, anjos exortaram os discípulos a esperar sua volta (At 1,11). O texto também indica que Jesus foi “elevado entre nuvens”. Essa imagem é retirada do Antigo Testamento, onde a nuvem é tida como sinal do mistério da presença de Deus que se revela e se esconde ao mesmo tempo. Tudo é nebuloso porque é próximo e simultaneamente oculto. Distante e próximo é o Cristo que se revela e se esconde no mistério da sua Páscoa e Ascensão. Ele sobe ao céu e permanece próximo da humanidade.

O subir e o elevar-se, neste caso, não indicam um lugar, mas a exaltação de Cristo. Jesus de Nazaré, Crucificado, ao ressuscitar foi reconhecido como o Messias, o Cristo. Mais, ele foi revelado como o Senhor, o Filho, que é também adorado e glorificado como Deus. Subir aos céus, portanto, não alude à mera elevação a um espaço, mas ao reconhecimento de sua dignidade de Deus que senta à direita do Pai. No contexto oriental, essa expressão indica que ele participa do mesmo poder do Pai. Podemos dizer que o céu é onde Deus está. Mais do que um lugar ou um espaço delimitado, o céu é uma presença. Onde está Deus, aí está o céu.

Ainda nos resta entender o sentido dessa Festa para o cristão e a humanidade de todos os tempos. Se contemplamos Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, considerando que a Ascensão elevou até o Pai também a natureza humana de Jesus Cristo, entendemos que a nossa humanidade entrou no mais íntimo de Deus. A mesma natureza que fez Jesus chorar a morte de seu amigo Lázaro, contemplar os lírios do campo e os pássaros do céu, compadecer-se dos enfermos, tocar o leproso, acalmar o mar e carregar o lenho da cruz, encontra-se, agora, elevada à Trindade Santa, pois o Filho, ao ser elevado ao céu, carregou consigo toda experiência do Crucificado-ressuscitado. Como na pessoa de Jesus encontrava-se unida sua humanidade e sua dividande, tudo o que ele viveu em sua carne fora santificado e, na Ascensão tudo foi plenificado na Trindade. Nada que é humano é estranho ao Senhor. Ele que se fez carne como todo ser humano, exceto no pecado, pode elevar também toda humanidade, redimida pela sua Páscoa, até Deus. Tudo que é humano interessa ao Senhor, que deseja salvar a todos. Tudo que é humano, portanto, interessa à Igreja: família de Deus.

Cabe-nos trabalhar agora, desde a Ascensão até a a Parusia, para que a humanidade caminhe confiante nos passos de Cristo. A missão do discípulo é anunciar e testemunhar que um novo mundo está preparado para a humanidade. A tarefa que se impõe a todo seguidor de Jesus é a de servir os seres humanos, tocar suas chagas, curar suas feridas e fazer como Jesus: passar pelo mundo fazendo o bem. Afinal, entre a promessa e a sua realização, somos movidos pela esperança que nos torna fraternos, mas também nos faz acreditar na vida celeste que deve qualificar a existência terrestre. Que seja, assim na Terra como será no céu!

Teresa: a andarilha de Jesus | 5 de agosto de 2016

Em outubro, encerram-se as celebrações do quinto centenário do nascimento de Santa Teresa. Esse foi um sinal de memória e de gratidão pelas maravilhas que o Senhor realizou na mística de Ávila. Mais: indica que a sua mensagem está viva e é capaz, ainda hoje, de suscitar peregrinos no caminho que ela mesma trilhou. 

Para Teresa o caminho é uma imagem muito querida. Em suas obras, ela recorre mais de seiscentas vezes às palavras: “caminho” e “caminhar”. Para ela, esses termos têm duplo sentido: exterior e interior. Caminhamos pelo mundo, no tempo e no espaço e percorremos também as vias do nosso eu mais profundo, procurando o sentido de ser e existir. Essa imagem reflete o dinamismo do pensamento teresiano. Ela mesma será chamada, até criticamente, de “andarilha”. 

 

Uma contemplativa andarilha? Sim, em Teresa, o paradoxo encontra a síntese. Ela caminha apressadamente em direção ao Senhor, mas não é afobada, tem pressa, como fez Maria para ir ao encontro de Isabel. É um êxodo, um sair de si, guiada pelo encontro com o mistério divino que lhe comunicou algo maravilhoso. Nada pode reter essas mulheres de Deus. A Mãe do Senhor corre às montanhas da Judeia para levar, no ventre, o Verbo feito carne que seria precedido por João Batista. Teresa percorre a Espanha, levando no coração o Amigo e Companheiro perfeito, fazendo com que suas filhas, as monjas, se aproximem do Cristo. Enquanto a Virgem Maria era “levada” por Deus e ao mesmo tempo caminhava como cristófora, isto é, carregando Cristo, Santa Teresa tinha consciência que não caminhava sozinha. Dizia ela: “Caminhemos juntos, Senhor: andarei onde andares, e por onde fores, irei também eu.” (Caminho de Perfeição 26,6).

O que movia Teresa era um desejo incontido de Deus. Desejo: uma palavra tão ambígua em nossos tempos. Há tantos desejos egoístas, que manipulam os outros, compram sentimentos e pretendem satisfazer a sede de plenitude. Mas nada conseguem e, no final, resta o vazio. Teresa deseja seu Senhor. A etimologia da palavra desejo vem do latim: desideribus, e pode designar de-sideribus, isto é, além das estrelas, ou o que vem das estrelas; remete ao conceito de transcendência. Ir além das estrelas, metaforicamente, é encontrar Deus. Teresa caminha para além das estrelas, pois seu desejo está focado no Senhor do caminho, aquele que ela mesma quer atingir. Ela “deseja” superar todo “desejo” para encontrar aquele que todo coração humano busca, mesmo sem ter consciência. Por isso, Teresa coloca-se a caminho, numa estrada até então desconhecida, e só assim abre acessos novos na busca de Deus. Enquanto ela caminha em busca do Amado, na mesma via ele vai à procura de Teresa. Ela é a Teresa de Jesus, e ele é o Jesus de Teresa.